Na Zona Oeste do Rio, vários Davis, alguns Golias.



A cidade carioca, quais limites alcança? A Companhia Siderúrgica do Atlântico, empreendimento da alemã Thyssenkrupp e da brasileira Vale do Rio Doce, é alocada em uma das regiões de mais baixo índice de desenvolvimento social do município do Rio de Janeiro.
Bem depois de Bangu, detrás do maciço da Pedra Branca, a TKCSA é das maiores plantas de siderurgia da América Latina e ocupa 9km² dentro da área de relevante interesse ecológico da Baía de Sepetiba. A usina está ativa há cinco anos, em região cheia de residências, e, no entanto, não possui o documento essencial para permanecer assim: a licença de operação do Instituto Estadual do Ambiente, o INEA.

Há mais de cinco décadas, existe o distrito industrial de Santa Cruz, banhado pela baía de Sepetiba. Ali fábricas são bem-vindas pelo Estado e recebem benefícios fiscais dos governos estadual e municipal. Além de terra prometida às indústrias, Santa Cruz é um bairro no extremo oeste do Rio de Janeiro onde vivem quase 6% da população carioca e onde as raízes rurais ainda mantêm vivos os costumes da pesca, da agricultura, da apicultura e da criação de animais.
Cheia de conjuntos habitacionais, a localidade vive sob a grande sombra da TKCSA há dez anos - desde quando começaram as obras de instalação da planta. A trajetória dessa convivência, até para os padrões de um local apinhado de chaminés, foi pontuda por toda a sorte de turbulência na vida de quem, por ventura, mora próximo à reta João XXIII.

Esta reportagem encomendada pelo Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul, o PACS, é, ao mesmo tempo: um balanço das ações da resistência popular ao empreendimento TKCSA e uma procura pela compreensão - sempre escorregadia - das diversas facetas do desenvolvimento econômico baseado em desigualdade, meritocracia e muita pressa.
Como este se trata de um conjunto multimídia e digital de histórias, o leitor pode ler de cabo a rabo seguindo o curso sugerido pela sequência desta página ou escolher começar em outro ponto. Os links para caminhos diferentes estão disponíveis sempre ao final de cada subtítulo, à esquerda da margem do texto. Bem-vindas e bem-vindos à Reta João XXIII, uma das inúmeras franjas do crescimento econômico nacional.

Captação e edição de vídeo e som:
A Jerimundo Filmes é uma cooperativa audiovisual formada por profissionais graduados em Audiovisual pela UFRJ.

Texto, fotografias e concepção:
Janaína Pinto é comunicadora social e mestra em Economia Política Internacional, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Infográficos:
Yuri Leonardo é designer gráfico formado em Comunicação Social pela Universidade Federal do Ceará.

Um Golias:
o vizinho cheio de demandas


A planta industrial da CSA ocupa 7% da área do bairro carioca de Santa Cruz

Mapa da região

O porto privativo da companhia fica dentro da baía de Sepetiba. Parte da captação da água necessária ao processo industrial é feita no estuário do canal São Francisco - braço do rio Guandu. A água utilizada na termelétrica do complexo siderúrgico é dispensada também no São Francisco.

De acordo com a CSA, a alta tecnologia utilizada pelo empreendimento devolve a água ao Guandu sem poluentes e não despeja nenhuma substância tóxica nem na Baía de Sepetiba nem no canal São Francisco.

De acordo com pescadores contrários ao empreendimento, quando o nível do canal está baixo, é possível ver línguas pretas de poluição e a captação de água no canal afasta os peixes do lugar de onde eles costumavam tirar o sustento de suas famílias.

Última estação do trem:
a cidade pequena dentro da cidade grande


 

Quando um visitante chega à Santa Cruz e vem da Central, há quem lhe pergunte BOX - TACse o tempo "lá na cidade" está bom. O bairro está a duas horas de trem da Central do Brasil e é vizinho ao município de Itaguaí. Muitos dos quase 390 mil habitantes dali enxergam o centro do Rio como a última parada ferroviária que os leva ao trabalho. Assim, pegam o trem lotado de manhã cedo e passam pelo menos metade do dia na peleja de ir, trabalhar e voltar para casa.

Da plataforma da estação local, é possível ver o Hospital Municipal Dom Pedro II. Localizado na parte central do bairro, o prédio é um dos mais altos dali. De perto, os arredores da estação se assemelham a uma - nem tão - pequena cidade dentro dos limites administrativos da metrópole carioca. A propulsão de comércios e órgãos públicos fica próxima ao entra e sai do trem. Nas partes mais afastadas, estão os conjuntos habitacionais, as plantações e as indústrias.

O centro é toda uma ebulição. Lojas de roupa, casas de construção, ateliês de costura, farmácias, vendas de frutas e legumes, açougues e feiras de rua misturam cada espaço do lugar no colorido acinzentado dos crescimentos econômicos ou apressados, ou pouco fiscalizados, ou os dois.
A fumaça dos churrasquinhos faz nuvens na altura dos olhos, as mesas de bar se espalham desinibidas pelos espaços públicos, e o alarido dos trocadores das vans se sobrepõe a tudo o mais como um canto de maritaca urbano, obstinado e grave - mas nem por isso menos estridente.
Nas pistas, a competição sem trégua entre carros, motos, bicicletas e vans - de portas abertas a plena velocidade - torna ainda mais arriscada a missão de atravessar a rua. A flexibilidade das normas urbanas faz lembrar os morros mais próximos ao Largo da Carioca, mas as pistas, semáforos e pontes dão uma perspectiva toda diferente.

Os lados mais afastados do bairro são de maior calmaria, onde a beira dos aquíferos é quintal e os galos desavisados ainda cantam várias vezes ao dia. Perto da água, há quiabo, mamão, abóbora, maxixe - na teimosia de vingar.

À margem das retas de asfalto, tem palmeiral, aipinzal, bananal e algumas pessoas pelas calçadas, esticando assunto com os vizinhos. Tem casa avarandada em frente ao bar, amendoeira detrás do portão, barraca de churrasco no canto da pista, caixa de cerveja no pé do muro, banca de fruta bem ao lado do supermercado. Aos finais de semana, baile funk na pracinha e celebrações nos templos religiosos; um que outro morador perdido nos pensamentos varre a calçada devagar; muito silêncio. Nas plataformas dos trens, dentro das vans, nos ônibus municipais, tantas vidas cariocas pisam a Zona Sul tão poucas vezes no tempo, menos de uma vez ao ano.

Uma das retas de asfalto dali se chama avenida João XXIII. Ela começa próxima ao Pedro II e atravessa vários conjuntos habitacionais do bairro até alcançar o município de Itaguaí, onde passa a se chamar Estrada Reta de Santa Cruz. Entre os moradores, é conhecida como Reta João XXIII. Há dezenas de anos, quando ainda nem era feita de asfalto, era por onde passavam caminhonetes rumo ao centro do Rio.

À margem da avenida, ainda no município carioca, funciona o complexo industrial da Casa da Moeda. Ele foi uma das primeiras atividades fabris a se instalar em Santa Cruz, quando na década de 1960 o então governador Carlos Lacerda transformou o bairro em distrito industrial. Mais recente, o complexo siderúrgico da TKCSA também tem portaria na reta, vizinho à Chatuba e aos conjuntos residenciais Alvorada, São Fernando, 61, Miéssimo da Silva, João XXIII e outros mais. Conjuntos como os Guandu I e II estão mais afastados da planta, embora ainda haja quem, à noite, observe a fumaça se espalhar pelo céu claro dos lados da Chatuba.
Há talvez tantos ônibus ali quanto há vans, mas estas dão a impressão mais forte de estarem por toda parte, porque alcançam lugares não visitados pelo transporte público oficial. Aliás, os braços não oficiais estão tão presentes ali quanto a estrutura do Estado. Talvez por isso a muitos não pareça inusitado quando o emblema da Tyssenkrupp CSA espalha-se pelo bairro - especialmente desde as multas impostas à companhia por conduta ambiental irresponsável.

A TKCSA está na educação, na saúde, no lazer e na comunicação social. Está escrito na camisa de crianças, em cartazes de rua e no Alô Comunidade, tabloide realizado pela própria companhia e distribuído pelas ruas; reflete-se no trânsito pesado durante os horários de pico e é um fantasma na poeira do ar; intervê no curso e na vazão dos aquíferos; transforma e reinventa os espaços públicos, os recursos naturais.

A onipresença da siderúrgica divide a opinião de moradores. Estimula a resistência de quem se dói a cada atropelo da maneira como a planta siderúrgica se instalou; e também gera gratidão, por parte de quem prefere pensar que antes era abandonado pelo poder público e agora mora em uma localidade conhecida pelas esferas governamentais, graças à presença de uma das maiores companhias siderúrgicas da América Latina.
É o caso da funcionária pública Elizete da Rocha, 53. Nascida e criada em Santa Cruz, a Elizete da Reta, como gosta que a chamem, desenvolvia um projeto de reforço escolar havia quase vinte anos quando foi procurada por representantes da companhia para uma parceria. Há mais de cinco anos agora, a siderúrgica patrocina o reforço de Elizabete.
Entre histórias como a dela, medidas compensatórias e retornos de impostos de que a empresa foi isenta, fato é que Santa Cruz, carente de atenção governamental, vê lacunas de saneamento básico, educação e saúde supridas pelo empreendimento privado.

Meu Jardim Não É Usina



 

A CSA ainda não está pronta para ter a licença permanente,
mas já está pronta para produzir aço ao lado de casas


 

O começo de atividades da Companhia Siderúrgica do Atlântico foi tumultuado. Houve extensa série de denúncias referentes a violações de direitos - desde trabalhistas, até ambientais e básicos.
Ainda durante as obras, o Ministério Público Federal abriu inquérito para investigar o desmatamento de Mata Atlântica não devidamente licenciado pelo IBAMA. O Ministério Público do Trabalho também instaurou inquérito para apurar denúncias de violações de direitos trabalhistas.
Quando a operação da usina começou, em 2010, foi a vez do Ministério Público Estadual investigar a empresa após episódios de emissão de partículas prateadas na atmosfera dos arredores.

No entanto, foram R$ 15 bilhões de investimento no complexo siderúrgico da Thyssenkrupp CSA. A empreitada é considerada um dos maiores empreendimentos privados do setor produtivo na América Latina. E o governo do estado não ignorou o peso da empresa nas exportações estaduais na hora de penalizá-la. O próprio Instituto Estadual de Meio Ambiente já havia multado duas vezes a CSA, quando o governo do estado decidiu postergar a licença permanente do empreendimento e condicionar o licianciamento a uma série de melhorias na companhia.
Ou seja, a saída foi mantê-la aberta, mas não dar a ela o licenciamento ambiental de que necessita para operar à plena capacidade de produção. O instrumento legal utilizado para isso foi um Termo de Ajustamento de Conduta, o TAC 02/2012. Assinado entre a Secretaria Estadual do Ambiente, a Comissão Estadual de Controle Ambiental, o Instituto Estadual de Ambiente e a Thyssenkrupp CSA, o documento previu medidas compensatórias, além de inúmeras melhorias na estrutura da companhia. As 134 medidas previstas pelo termo visam evitar, entre outras irregularidades, condutas perigosas para a saúde da população vizinha e dos trabalhadores. Desde então, foram apresentados vinte relatórios de acompanhamento das ações da CSA em direção ao completo ajustamento de conduta. O mais recente ainda levanta a necessidade genérica de a CSA aprimorar a prevenção de poluição das águas pluviais, bem como o controle sobre emissões atmosféricas, riscos potenciais e ruídos envolvidos em planta fabril de tamanho porte.

Do ponto de vista de quem realiza a resistência ao empreendimento, a situação encabeçada pelo TAC apresenta malefícios e pequenas vitórias. Por um lado, a TKCSA não cumpre os requisitos necessários para sair da fase de pré-operação, e a licença para tal etapa do empreendimento venceu há três anos. Mas está ativa ainda assim.
De acordo com a companhia, 92% das medidas foram atendidas até este momento, em outubro de 2015. Já se passaram três anos e seis meses desde a assinatura do TAC, e o prazo estipulado para compleição das medidas vinculantes à licença ambiental foi esticado duas vezes.

Para quem se viu prejudicado pela empresa, a extensão dos prazos funciona como uma dolorosa lembrança de como a flexibilidade das leis deste país é diretamente proporcional à geração de capital da pessoa física ou jurídica em situação irregular.



Por outro lado, a recorrente resistência de alguns moradores e entidades críticas ao empreendimento, como o PACS e a Fundação Oswaldo Cruz, e a fiscalização realizada pelos Ministérios Públicos Estadual e Federal do/no Rio de Janeiro mantiveram pressão sobre as autoridades ambientais e a própria siderúrgica. As críticas constantes também contribuíram para uma guinada na postura da companhia. Depois do início conturbado, a CSA multiplicou o valor de capital privado investido em projetos de educação e esporte nos arredores da planta industrial e foi levada a construir um número considerável de prédios voltados para saúde e saneamento básico da região, graças a medidas compensatórias acordadas com o Estado.

Longe de acomodarem a militância dos moradores engajados e de instituições como o PACS, as mudanças fomentaram novos debates e são pequenos passos diante do desejo por uma sociedade: cuja participação popular em decisões políticas e econômicas seja uma constante; e na qual a grandiosidade de empreendimentos econômicos como a CSA não seja vista como uma característica a se almejar, mas um risco a ser evitado.

Alergias, pó prateado e programas de tevê


 

As histórias são conhecidas do mundo das notícias. Logo nos primeiros meses de atividade dos altos-fornos, saltaram aos olhos da vizinhança casos de alergias cutâneas, respiratórias, auriculares e oftálmicas - especialmente entre crianças e idosos. Rosimeri Lopes, 48, foi tantas vezes indicada por vizinhos a abrir o verbo para jornais e programas de tevê que já separou uma pasta com as informações principais do que lhe aconteceu depois da chegada da companhia.
Bem articulada e enérgica, a dona de casa é conhecida pelos arredores como Abençoada, porque costuma chamar todo mundo assim. Saiu de Realengo para ir viver em Santa Cruz 18 anos atrás, quando já estavam no bairro indústrias como Cosigua e Casa da Moeda. Depois de mais de uma década morando à beira do canal de irrigação, a mais de nove quilômetros da siderúrgica recém-inaugurada, o corpo deu-lhe um susto. "Começou com uma dor no rosto - depois descobri que se chama sinusite, os olhos também ficavam muito vermelhos, bastava escurecer. Quando estava muito ruim, inchava aqui", aponta para as têmporas. Depois conclui: "os médicos passaram antialérgico e corticoide. Até hoje tomo o antialérgico todos os dias". Vários meses e tratamentos depois, a condição amainou. Vez ou outra, os olhos ainda se põem a coçar. Em uma das visitas sem aviso à Abençoada, a dona da casa estava com os cantos dos olhos visivelmente irritados e lacrimejantes. Ela não disse nada, nem chamou atenção para a vermelhidão, parecia não mais se dar mais conta; estava anoitecendo.

São mais de uma centena de ações civis movidas pela Defensoria Pública em nome de famílias vizinhas à TKCSA. A de Rosimeri é uma delas.



Fora dos holofotes e alguns quilômetros mais próxima à TKCSA, a moradora da reta João XXIII Creuza Alcântara, 58, começou com uma falta de ar sem tamanho em 2010. O marido, que por um par de anos trabalhou nas obras de dragagem necessárias para a instalação da companhia e nunca sentiu nem um aperto no peito, relata: "ela acordava no meio da noite e abria todas as janelas porque não conseguia respirar".

Creuza conta a história ainda um pouco impressionada: "eu passava o dia cansada, não tinha ânimo, era tão ruim à noite que eu quase não dormia". O casal precisou fazer um plano de saúde para ela. Em conjunto com outros fiéis da igreja a qual frequentam, ficou mais em conta. Depois de cinco anos de tratamento e três nebulizadores queimados pelo uso contínuo, a costureira ficou boa e já pode varrer a sala sem precisar se sentar a cada cinco minutos. Nunca entraram com ação contra a companhia.

De casa em casa, com calma e algum café, pode-se seguir ouvindo casos parecidos dias a fio. Ou mesmo não tão parecidos assim. Na lembrança das pessoas, 2010 foi um ano muito assustador nas proximidades da avenida João XXIII. O neto de seis anos da comerciante Rita Carneiro, 53, do conjunto Alvorada, quase virou um prurido só com a pele coberta de bolotas vermelhas. Ela própria sentiu irritações na pele, mas nada comparado à criança. Um sem número de mulheres do Novo Mundo começou a limpar casas e quintais duas, três, quatro vezes ao dia. As coceiras nos olhos, as crises de garganta, os cansaços súbitos tomaram as ruelas dos conjuntos habitacionais casa sim, casa não, numa eleição aleatória de acometidos.

O pó caiu democrático sobre toda a redondeza. E foi justamente ele quem chamou a atenção das televisões e dos jornais de papel. A chuva de prata - como apelidaram.



A dona de casa Margarete dos Santos, 50, lembra a sensação de estar cercada das partículas prateadas emanadas pela vizinha industrial. "Eu abria a porta de casa e ficava desesperada. O chão estava imundo, eu tinha acabado de limpar. Bastou ligarem os fornos, começou uma vida insustentável. Com o tempo, fui perdendo o gosto de fazer as brincadeiras aqui no quintal. Antes a gente colocava até piscina inflável. Mas, depois, como? Se o pó sujava tudo?"
Se pelo assombro causado ou à vera, as pessoas lembram-se de fenômenos como o testemunhado pela Rita do conjunto habitacional Alvorada: "naquele ano, cansei de ver animal caído morto nas ruas daqui do conjunto: papagaio, maritaca, um monte de pássaro grande estirado na rua". A antropóloga inglesa Delia-Rizpah Hollowell, 33, é moradora do Alvorada enquanto realiza pesquisa de doutorado sobre poluição e saúde. A percepção cuidadosa da pesquisadora faz com que ela conduza dezena de entrevistas pelas proximidades da companhia e prefira evitar as certezas. Ela diz que a maioria dos entrevistados tem alguma história sobre problemas de saúde na família e em vizinhos. A situação do acesso complicado ao atendimento médico, no entanto, "é um dos fatores que dificultam você poder confirmar a relação entre a poluição e os casos de alergia. O que dá para afirmar é que essas pessoas sofreram um abalo forte com a chuva de prata e que elas têm medo do pó que vêm pelas ruas e dentro de casa".

Em dezembro de 2010, o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro denunciou a Thyssenkrupp CSA - bem como dois funcionários da empresa em cargos de liderança - por quatro crimes ambientais.
A ação foi ajuizada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado, o GAECO, e procurou demonstrar que a TKCSA - desde a inauguração, em junho daquele ano - gerava poluição atmosférica em níveis capazes de provocar danos à saúde humana.

O principal crime denunciado foi o derramamento de ferro-gusa em poços ao ar livre. O ferro-gusa resulta do derretimento do minério de ferro. Quando entrou em contato com o solo, depois de superaquecido pelo alto-forno, o material provocou a emissão de toneladas de material particulado. Essa parte da história foi a explicação dada pela companhia.
A divergência vem a seguir: segundo a denúncia do MP, uma das razões para a emissão ter constituído crime foi a poluição em níveis que resultaram ou poderiam haver resultado em danos à saúde humana; segundo o empreendimento, a emissão causou incômodo à vizinhança, mas era inofensiva, porque era pó de grafite.
De todas as formas, uma vistoria do INEA identificou como raiz do incidente problemas técnicos na linha de produção do primeiro alto-forno. Por essa razão, o metal extremamente quente foi entornado no chão da planta, ao ar livre. Com a ação do vento, espalhou-se pela redondeza - a qual, além de extremamente residencial, é também uma área de relevante interesse ecológico.

O fato de a siderúrgica não haver notificado o órgão licenciador do estado do Rio de Janeiro sobre os problemas do maquinário atuou como agravante. O Instituto inicialmente multou a CSA em R$ 1,8 milhão. Depois o valor baixou para R$ 1,3.
A ação do MP mencionou vistorias e relatórios do INEA e revelou que, para a siderúrgica, derramar o gusa em cavas abertas quando, por alguma razão na linha de produção, ele não pode ir direto para a próxima etapa industrial, é um procedimento comum a siderúrgicas em todo o mundo. A denúncia foi complementada por relatórios técnicos do próprio INEA e por estudo realizado pelo Instituto de Geociências da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a UFRJ.

No mundo midiático, a chuva de prata aconteceu um mês após iniciarem-se as atividades do primeiro alto-forno, em agosto de 2010. Entrou em pauta após a denúncia de um morador à Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Depois voltou a acontecer em dezembro daquele ano, tendo a companhia por isso sido multada mais uma vez, em janeiro de 2011, no valor de R$ 2,8 milhões.
Em outubro de 2012, a nuvem prateada tornou a aparecer nos jornais, também através da denúncia de moradores. Desta vez, foram R$ 10,5 milhões em multa. O TAC já havia sido assinado, em março daquele ano, e previsto R$ 14 milhões em medidas compensatórias.
Entretanto, no relato de Margarete, a convivência com o pó continua: "Semana passada caiu um bocado. É mais fino do que antes, mas ainda cai". Rita tampouco confia na água de beber dos bichos. "Troco três vezes por dia. Quando esqueço e vou ver, está cheia de pozinho prateado".

A diarista Vilma Batista, 55, moradora do conjunto habitacional Novo Mundo, nem gosta de conversar sobre o assunto, porque "não gosta de dar murro em ponta de faca", mas diz que a relação com a poeira prateada é constante: "às vezes, as pessoas até brilham".



Reiterada pela empresa, a consciência tranquila: os filtros são da mais avançada tecnologia e, depois dele, mais acima nas chaminés, existem sensores para detecção de gases tóxicos; além do mais, as três estações automáticas de monitoramento da qualidade de ar instaladas nas cercanias do complexo siderúrgico em nenhum momento dos cinco anos de atividade da planta acusaram níveis ilegais de concentração de partículas suspensas no ar das redondezas. Esse dado é confirmado pelo INEA.
Por outro lado, o próprio site do Instituto informa que, quando os medidores de qualidade de ar acusam um nível de pureza regular, isso significa que pessoas de grupos sensíveis - crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias e cardíacas - podem apresentar sintomas como tosse seca e cansaço. A população, em geral, não seria afetada.

Logo na saída da Central, uma pichação em frente ao ramal de trem que alcança o bairro conversa com os passageiros dentro dos vagões em direção à Zona Oeste: "centenas vão sentados, milhares vão em pé". Escrita em caixa alta, a saudação desenha uma linha invisível entre o muro de um edifício meio aos pedaços e a vista de quem, sim, segura-se de pé no total desafio às leis da física que pode ser a lotação de um trem urbano carioca no horário de pico.

A declaração feita pela TKCSA sobre a qualidade do ar de Santa Cruz ser inclusive superior à de Copacabana e do Centro do Rio também desenha uma linha - entre a planta siderúrgica que ocupa mais de 7% do bairro e cada casa onde algum morador adoeceu. Se pudesse se traduzir em poucas palavras, como um picho na beira da linha férrea, a mensagem por detrás diria: de acordo com as estações automáticas de monitoramento, você não conta.

Em 2010, a pesquisa feita pela UFRJ para compor a denúncia do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro atestou um aumento de 600% na concentração média de ferro na área de influência da TKCSA em relação ao período anterior ao início da instalação; também indicou a violação ao limite máximo tolerável legalmente para a concentração de poluente atmosférico, acima do qual a saúde da população pode ser afetada.

Em seguida, um grupo de trabalho foi montado dentro da Secretaria Estadual de Ambiente para investigar as denúncias de emissão de particulados. Entretanto, as pesquisas realizadas na esfera executiva estatal foram inconclusivas, e as pessoas que se levantaram contra a siderúrgica foram desconsideradas.



Cartela - O que significa quando a qualidade do ar é apontada como regular

À revelia - reuniões, passeatas e barqueatas


 

Em completo desacordo com as falas oficiais da companhia, a resistência das pessoas afetadas pelo empreendimento se organiza em torno do debate político coletivo sobre o crescimento econômico que desejam e as violações de direitos vinculadas à proximidade da empresa. Os encontros começaram bem antes de 2010, com as primeiras grandes mudanças em Santa Cruz, aportadas pela instalação da usina e do porto: o aterramento do mangue e a dragagem dos aquíferos.

Quando chegou ao bairro, a siderúrgica veio endossada pelo próprio governo do estado, através da doação de um terreno onde viviam setenta e cinco famílias ligadas ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e estava o mangue - Há hoje, dentro do terreno da companhia, uma reserva de 160 hectares de mangue; mas, para a construção, foram desmatados 23 hectares.

Em um dia perdido de 2005, a aposentada e moradora da reta João XXIII, Salvina Barbosa, 74, sentiu as paredes estremecerem. Mais cedo, a dona de casa e também moradora da reta, Maria Sueli Barreto, 65, havia assistido meio aturdida da varanda a chegada lenta e continuada de tratores e operários em direção às áreas enlameadas próximas ao mar. A cada impacto sonoro da obra, a casa parecia sair do lugar, e a dúvida das duas ficava mais forte: mas afinal, o que essas pessoas estavam fazendo ali?

Entre as pessoas misteriosas, estava Antônio Getúlio do Nascimento, 63, mais conhecido como Getúlio Padeiro. O comerciante também mora na reta e lutou como operário contra o enlameado da terra local a serviço da empresa contratada pela TKCSA. O objetivo de preparar o terreno para a chegada da usina deu a Getúlio muito contentamento - a experiência de participar de um projeto com pessoas de "mais instrução".
Até hoje, guarda as fotografias feitas por ele durante o período dos aterramentos e dragagens. Mostra com muita alegria as provas do quanto foi difícil levantar uma planta industrial de cima de um atoleiro. A dona Salvina e a dona Sueli não souberam disso.
As fotografias dela, se houvessem sido feitas, seriam das rachaduras na estrutura das casas, provocadas pelos tremores, e dos momentos de dores de cabeça trazidos por um canteiro de obras que, em nenhum momento, disse a que veio. Nas palavras da siderúrgica, o projeto da planta foi "amplamente divulgado aos moradores e lideranças locais".
E "para a construção, a empresa realizou negociações e acordos com todos os moradores que possuíam alguma propriedade em torno da área de implantação da siderúrgica". As donas Sueli e Salvina tampouco souberam disso.

Nos arredores da reta João XXII, ter muitas profissões é natural; é comum virar-se como pode; e, muitas das vezes, as pessoas fazem o que fazem "porque é o jeito".
Por que você cuida dos porcos do seu Paulo se você é pescador, Fábio? Porque é o jeito. As pessoas fazem o que é preciso, elas se adaptam e vão adiante. Algumas delas, além de seguir adiante, continuam a exercer o direito a reclamar respeito e participação popular em decisões que afetam muito mais gente do que as representadas nas mesas de negociação entre companhias e Estados.

A oposição ao empreendimento logo tomou as conversas da calçada e, em janeiro de 2007, uma manifestação com 52 embarcações paralisou a draga por um dia. O diretor da companhia se viu obrigado a ir ao local, de helicóptero, para conversar com os manifestantes.



Pescadores da região pediam diálogo e alguma solução para os prejuízos. O barulho e a vibração dos bate-estacas, a grande circulação de operários nas proximidades do estuário do canal São Francisco estavam espantando os peixes e interrompendo o fluxo de renda deles.
Em conversa na sala de amigos, o pescador Jaci do Nascimento, 61, lembra assim: "Depois disso, teve uma reunião no restaurante popular [projeto social da empresa Gerdau, localizado na reta João XXIII, foi interrompido este ano, 2015]. Nessa reunião, eles [os representantes da CSA] disseram que comprariam nosso peixe para evitar nosso prejuízo".
Ozeas Quintanilha, 84, interrompe o amigo: "Mas que peixe? Que peixe a gente ia pescar com aquela barulheira toda?". O pescador Jorge Gonçalves, 54, emenda: "Prometeram cesta básica também. Mas nem isso deram". Moradores da estrada do Guandu e do conjunto habitacional Novo Mundo, Jorge, Jaci e Oséias têm ações movidas contra a companhia.

Ao longo dos anos, os desmandos do empreendimento foram denunciados ao BNDES, à ONU, ao ministro brasileiro de Direitos Humanos, dentro do Congresso Nacional, na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, a jornais cariocas, ao parlamento alemão e por aí se foi. Não raro, a insatisfação tomou as ruas de Santa Cruz. Como no dia primeiro de maio de 2009.
A caminhada saiu da Praça do Gado, no começo da reta João XXIII, e foi em direção à Chatuba, região de Santa Cruz onde está a portaria principal da siderúrgica. Os manifestantes entraram nos postos de saúde e distribuíram folhetos que pediam a atenção das autoridades estatais e da própria companhia a respeito da continuada violação de direitos no entorno do empreendimento.

Os caminhões da obra agitaram um trânsito antes mais tranquilo, a poeira levantada por eles entrava pelas casas, e as famílias descobriam o que acontecia pelos vizinhos mais informados. Sem contar os problemas mais sérios, oriundos pelos bate-estacas e pelas mudanças no curso do canal São Fernando. "O trânsito ficou horrível por causa desses caminhões", lembra Oséias, "e ficou perigoso demais para as crianças", complementa Sueli.

Durante a inauguração da siderúrgica, no dia 2 de junho de 2010, também foi momento para se manifestar. Enquanto Lula, Sérgio Cabral, Roger Agnelli e Eberhard Scholtz celebravam do lado de dentro da cerca, o protesto e a panfletagem aconteciam nas ruas de Santa Cruz. Um mês depois começaram as queixas sobre a poluição atmosférica.

O carpinteiro aposentado Raimundo Firmino de Araújo, 72, foi a manifestações críticas ao empreendimento motivado pelo pó de prata. Ele começou a perceber que o acabamento das peças dentro de casa estava ficando comprometido mais rápido do que o habitual. "A gente pedia para parar porque não era possível, a gente pedia socorro às autoridades. Não eram só os móveis, tinha muita gente doente", relembra.

As queixas se acumulavam e, depois das emissões de material particulado, aconteceu a reunião na pracinha Alvorada. Centenas de pessoas estavam presentes. A dona de casa Maria Sueli Barreto, 65, lembra o convite feito pela Defensoria Pública para a reunião. No microfone, moradores como ela faziam falas sobre os impactos causados pela indústria, e um cadastro foi realizado com a intenção de dar início à ação penal coletiva contra a companhia.

Os rios e canais de Santa Cruz são casa de peixe e sustento de pescador
ou água de resfriar maquinário siderúrgico?


 

O pescador Dinho morava com o pai debaixo da construção da ponte de acesso à portaria principal da TKCSA, à beira da água do canal do São Francisco. Mas debaixo da ponte não dá de ficar. Antes, foi indenizado pelo material de construção usado para colocar de pé uma casa à beira dessa mesma ponte, porque estava no caminho dos fios de alta tensão necessários ao distrito industrial de Santa Cruz.

Em 2015, Dinho, que mal se metia na resistência à TKCSA, perdeu a paciência. Acorrentou-se à barragem construída pela Associação das Empresas do Distrito Industrial de Santa Cruz e Adjacências, a Aedin, e acabou na delegacia.

A posição da companhia, algumas vezes apresentada em notícias de jornal, é de que a decadência da atividade pesqueira na Baía de Sepetiba não é fenômeno dos últimos dez anos, mas algo há muito presente na região, especialmente depois da década de 1960, quando o governador Carlos Lacerda transformou Santa Cruz em distrito industrial.

No relato dos pescadores, no entanto, o que se levanta não é o longo prazo da atividade, mesmo porque os mais antigos pescam há 30, 40 anos, então sequer viveram a época anterior ao distrito industrial, quando o bairro era zona rural e, portanto, não atraía fábricas nem apresentava aspectos urbanos hoje tão presentes.

Edson Correia da Silva, 43, mata peixe na Baía de Sepetiba há 23 anos, ou seja, desde 1992. Nas palavras dele: "Por volta de 2006, a gente via peixe pular no [canal do] São Francisco. Em uma noite, podia voltar do barco com 180, 200 quilos de pescado". Ainda segundo o relato de Dinho, como é conhecido entre vizinhos, já em 2014, ele e o pai, com quem pesca, também voltavam com 200 quilos de peixe, mas por semana.

Desde abril de 2015, porém, quando indústrias da região precisaram represar parte da água do canal para benefício próprio, Dinho e o pai insistem na pescaria noite sim outra não, mas quase sempre voltam de mãos vazias.

Morando em rua tranquila do conjunto habitacional Novo Mundo, fora dos alaridos e com casa própria, um casal de baianos vive no Rio há uma década. Naturais de Canavieira, Hermógens José, 46, e Lindinalva Maria, 60, são pescadores. Ela já aposentou por tempo de serviço, então pesca aos finais de semana com o marido pela boa lembrança. Ele, há alguns anos, precisou deixar de depender do pescado para ganhar a vida e agora exerce a função de pedreiro como principal fonte de renda.

A casa onde vivem tem espaço para a garagem de barcos na frente, depois do portão alto. São dois andares, mas o segundo é inacabado. Embaixo está o quarto, a cozinha, a sala e o banheiro. Em cima, apenas tijolo aparente, material de pesca e planos. "Tivemos de parar a obra uns anos, a renda da pesca caiu muito", diz Lindinalva, enquanto exibe uma rede de pesca que pesa mais de dez quilos.
Durante as obras da CSA, quando começaram a ver a renda da pesca ir por água abaixo, eles moveram ação de indenização por danos materiais e morais contra a CSA, junto de outros pescadores da região.

Repercussão midiática negativa, multas, medidas compensatórias e licenciamento negado - a guinada na postura da companhia em relação à população local


 

No conjunto habitacional São Fernando, a onipresença da empresa é emblemática. Por volta de 2010 e 2011, o bairro foi tomado por uma série de enchentes. Várias casas ficaram alagadas acima da altura dos joelhos. Moradores perderam sofás, camas, estantes, geladeiras, fogões. Precisaram ir dormir na casa de parentes fora dali; quem não tinha para onde ir foi acolhido por igrejas e escolas.

Alguns anos antes, a Thyssenkrupp CSA havia desviado a rota do canal do São Fernando, aquífero que dá nome ao conjunto habitacional de 21 ruas, próximo à reta João XIII. A empresa precisou desviar o canal, porque ele passava dentro do terreno doado pelo estado. Depois da intervenção humana, o canal deixou de desaguar diretamente na baía.
Assim, quando a enchente aconteceu e dezenas de pessoas ficaram temporariamente desalojadas, a CSA enviou colchonetes e bombas de drenagem ao local. De acordo com a comunicação da empresa, esse foi um gesto de boa fé, mas não implicou em admissão de qualquer responsabilidade pelo ocorrido.

Depois das denúncias sobre os alagamentos, a empresa assinou um acordo de cooperação com o INEA, construiu uma Estação de Tratamento de Esgotos em São Fernando, mas apresentou um relatório o qual eximia as obras do complexo industrial de qualquer relação com os acontecimentos.

O documento atribuiu toda responsabilidade a problemas originados na própria construção do conjunto, abaixo do nível do mar. Hoje em dia, na parte central do São Fernando, existe a estação de tratamento construída com o dinheiro da medida compensatória cumprida pela empresa e, justo ao lado, a quadra de esportes onde, desde julho de 2015, o projeto Usina Comunitária, também da TKCSA, oferece aulas de esporte gratuitas.

Dentro das casas, alguns moradores continuam a enxergar incongruências nesta história. O aposentado Gilberto Nasif, 56, é um deles. "Eu moro em São Fernando desde 1982 e eu nunca tinha visto alagar. Quer dizer, só em 1996, mas aconteceu no Rio de Janeiro inteiro. Sabe por quê? Porque antes a água tinha por onde escoar".
O morador continua: "antes da obra [da estação de tratamento de água], quando o Guandu enchia, a água não tinha para onde ir e voltava para as nossas casas. Alagou várias vezes. Aliás, já alagou até em dia de sol. Basta o rio encher. A gente está nas casas, mas não está seguro. Mesmo com a obra, a gente ainda espera o tempo de chuvas com medo. E eles não admitem responsabilidade por nada".

A prioridade é ir junto

As narrativas são muitas e com facilidade completariam muitos cadernos de apuração. Algumas delas ficam aqui como ampliadas pela possibilidade de estarem ditas também pelas palavras de uma jornalista 'de fora' - mas o destino delas é bem mais duradouro e delicado. A força que tomam diante dos discursos cuidadosamente elaborados por numerosas equipes de comunicação de companhias como a siderúrgica alemão-brasileira é de outra grandeza.

A grandeza que dá de ver em um domingo de sol, no alpendre da casa de Margarete. Um pequeno grupo de moradores próximos à reta reunido pela manhã. A londrina Delia, cuja pretensão não é fazer frente à companhia alguma e cujo caminho curioso trombou com a vida da Santa Cruz carioca por acaso, recém havia voltado da Inglaterra. De tanto olhar nos olhos das pessoas e se preocupar com o que lhe dizem, ela pulou dentro da cena que busca melhor compreender. Naquele domingo, conversava com alguns dos moradores em conjunto.

Talvez tenha sido domingo, na sala de casa, depois da reunião na Margarete, quando Ozeas confidenciou: "é muito bom quando aparecem pessoas de fora, porque é muito duro fazer oposição a um gigante. A gente fala das plantas, das alergias, do fracasso da pesca... As pessoas escutam, depois esquecem. Não sei o que seria da gente sem nossos aliados. Só quem mora aqui sabe como é, mas é muito importante ter quem acredita no que a gente diz."

A resistência de que é feita a reta João XXIII começa, encerra-se e recomeça em lugares e tempos como o alpendre de Margarete, o fôlego juvenil de Jaci, a calma faladeira de Ozeas, a paciência brincalhona de Regina, o temperamento afogueado de Dinho. Como a insistente ideia de que crescer e fazer política se conjugam sempre no plural e, de preferência, com todo tipo de voz, feito por todo tipo de mão. Devagar, se preciso for. Mas junto.